maio 29, 2006

O que mais você quer?

Martha Medeiros publicou uma crônica ontem, falando sobre coisas nas quais eu vinha pensando ultimamente. Achei perfeito.

"(...)Nada é tão comum quanto resumirmos a vida de outra pessoa e achar que ela não pode querer mais. Fulana é linda, jovem e tem um corpaço, o que mais ela quer? Sicrana ganha rios de dinheiro, é valorizada no trabalho e vive viajando, o que é que lhe falta?
É quase um pecado confessar: sim, eu quero mais. Quero não ter nenhuma condescendência com o tédio, não ser forçada a aceitá-lo na minha rotina como um inquilino inevitável. A cada manhã, exijo ao menos a expectativa de uma surpresa, quer ela aconteça ou não. Expectativa, por si só, já é um entusiasmo.
Quero que o fato de ter uma vida prática e sensata não me roube o direito ao devaneio. Que eu nunca aceite a idéia de que a maturidade exige um certo conformismo. Que eu não tenha medo nem vergonha de ainda desejar.
Quero uma primeira vez outra vez. Um primeiro beijo em alguém que ainda não conheço, uma primeira caminhada por uma nova cidade, uma primeira estréia em algo que nunca fiz, quero seguir desfazendo as virgindades que ainda carrego, quero ter sensações inéditas até o fim dos meus dias.
Quero ventilação, não morrer um pouquinho a cada dia sufocada em obrigações e em exigências de ser a melhor mãe do mundo, a melhor esposa do mundo, a melhor qualquer coisa. Gostaria de me reconciliar com meus defeitos e fraquezas, arejar minha biografia, deixar que vazem algumas idéias minhas que não são muito abençoáveis.
Queria não me sentir tão responsável sobre o que acontece ao meu redor. Compreender e aceitar que não tenho controle nenhum sobre as emoções dos outros, sobre suas escolhas, sobre as coisas que dão errado e também sobre as que dão certo. Me permitir ser um pouco insignificante.
E na minha insignificância, poder acordar um dia mais tarde sem dar explicação, conversar com estranhos, me divertir fazendo coisas que nunca imaginei, deixar de ser tão misteriosa pra mim mesma, me conectar com as minhas outras possibilidades de existir. O que eu quero mais? Me escutar e obedecer o meu lado mais transgressor, menos comportadinho, menos refém de reuniões familiares, maridos e filhos e bolos de aniversário e despertadores na segunda-feira de manhã.
E quero mais tempo livre. E mais abraços. E receber mais flores.
Pois é, ninguém está satisfeito. Ainda bem."

Posted by Beatriz Areas at 08:30 PM | Comments (0)

maio 14, 2006

Rosa-dos-Ventos

Esta foi a letra do Chico Buarque que selecionei para levar para a aula de Oficina de Leitura. Achei um lindo poema.


"E do amor gritou-se o escândalo
Do medo criou-se o trágico
No rosto pintou-se o pálido
E não rolou uma lágrima
Nem uma lástima para socorrer
E na gente deu o hábito
De caminhar pelas trevas
De murmurar entre as pregas
De tirar leite das pedras
De ver o tempo correr
Mas sob o sono dos séculos
Amanheceu o espetáculo
Como uma chuva de pétalas
Como se o céu vendo as penas
Morresse de pena
E chovesse o perdão
E a prudência dos sábios
Nem ousou conter nos lábios
O sorriso e a paixão

Pois transbordando de flores
A calma dos lagos zangou-se
A rosa-dos-ventos danou-se
O leito do rio fartou-se
E inundou de água doce
A amargura do mar
Numa enchente amazônica
Numa explosão atlântica
E a multidão vendo em pânico
E a multidão vendo atônita
Ainda que tarde
O seu despertar"


Posted by Beatriz Areas at 11:07 PM | Comments (2)

maio 08, 2006

Luana Piovani e o homem das cavernas

Um amigo comentava comigo ontem a respeito da participação da Luana Piovani no Saia Justa, do GNT. Dizia ele que ela é muito "boboca", que seus comentários são idiotas, e por aí vai. A besteira da semana ficou por conta de sua opinião (da Luana) sobre os homens muito vaidosos, que passam creme, que cuidam da pele, etc. O que seria chamado hoje de metrossexual, que é uma palavra horrorosa na minha opinião. Pois bem, a Luana disse que não gosta desse tipo de homem, e parece que foi crucificada por suas colegas de programa. Eu não disse ao meu amigo naquele momento, mas eu também penso como ela, não gosto de homens com excesso de vaidade, com muita preocupação se o shampoo é para cabelos secos ou oleosos, se a calça é de grife, etc. Claro que não chego ao ponto de gostar de homens que passam sabão de coco no cabelo, mas pra mim homem não tem que ser muito arrumadinho não. Cara de almofadinha nem pensar!!! Evidente que adoro um homem cheiroso, mas se ele tiver uma prateleira cheia de cremes no banheiro, prefiro não tomar conhecimento, da mesma forma que eles preferem não nos ver de máscara no rosto ou depilando as pernas.
E ah, não acho a Luana Piovani burra não. Depois que meu amigo foi embora, escutei uma entrevista dela na rádio Paradiso, e até que foi bem legal. Pode dizer umas besteiras às vezes, mas quem é que não diz ou ao menos pensa? Pior que isso são as pseudo-intelectuais, todas vestidas de preto, fazendo cara de mulher misteriosa e intensa, enfim, chatas toda vida. Né não?

Posted by Beatriz Areas at 06:16 PM | Comments (4)

maio 02, 2006

This song has no title (again..)

Não sei como começou essa coisa de não querer mais expor os meus assuntos. Como se, para ter um diário virtual, fosse necessário contar toda a vida tim-tim por tim-tim. Podemos publicar textos alheios (o que muitas vezes faço), ou poemas, ou palavras indecifráveis para aqueles que não são tão chegados. E ao mesmo tempo, a vontade de manter o blog atualizadoe a síndrome de tatu. Será o receio de admitir o erro, ou de confessar um possível arrependimento? Não, não tenho exatamente esse receio. Neste momento, sinto a minha jornada mais ou menos como a do pastor do livro O alquimista, que precisou ir pra longe e passar por muita coisa, pra descobrir que o tesouro estava em sua própria terra, em seu próprio lar. É assim que tenho me sentido, e não me envergonho de admitir. Preparo a partir de agora as minhas malas para voltar ao lar. Espero que dê tudo certo.

E para os amigos que me perguntaram de quem era o texto sobre o amor e a paixão, infelizmente não lembro de onde o tirei. Tenho esse (mau) hábito de copiar textos e poemas nos meus caderninhos e nem sempre a autoria. Ao menos sobre o último post, este sim, é uma das cartas escritas por Clarice Lispector a Fernando Sabino, cartas estas reunidas e publicadas no livro Cartas Perto do Coração. Utilizei essa cartinha como uma forma de dizer a amigos queridos que nada tenho a dizer e ao mesmo tempo pedindo uma palavra amiga, ou seja, eu, assim como a Clarice, também tenho um longo histórico de piscadas. Geralmente sempre pisco primeiro.... :-)

Posted by Beatriz Areas at 07:15 PM | Comments (1)