"Washington, 25 de outubro 1954
Alô Fernando,
estou escrevendo pra você mas também não tenho nada o que dizer. Acho que é assim que pouco a pouco os velhos honestos terminam por não dizer nada. Mas o engraçado é que não tendo absolutamente nada o que dizer, dá uma vontade enorme de dizer. O quê? Quando não tenho o que dizer, fico com vontade de "passar a limpo" tudo ou então de "apagar tudo" e recomeçar, recomeçar a não ter o que dizer. Ou então viro criança e minha vontade seria depender inteiramente de outra pessoa e esperar dela todos os ensinamentos. Ou então viro mãe e me preparo toda para dizer grave: as coisas são assim e assim, meu filho. Preparo-me bem grave, tenho o gesto maternal de começar a informar - e na hora de abrir a boca não tenho o que dizer, viro de novo ignorante e em vez de dizer o discurso, imploro: por favor, diga! E assim é que, por não ter absolutamente nada o que dizer, até livro já escrevi, e você também. Até que a dignidade do silêncio venha, o que é frase muito bonitinha e me emociona civicamente.
Se você responder esta carta com outra onde você também não saiba o que dizer, vai parecer aquele jogo que você certamente já brincou um dia: o jogo do "vamos ver que pisca antes", quem agüenta mais tempo ficar com os olhos bem abertos. Quem piscar é castigado. Humildemente, informo que sempre pisquei antes, tenho longo passado a piscar. Pois se agora mesmo estou quase piscando! - Não seja preguiçoso, Fernando, e me escreva, mesmo que nada tenha a me informar. Não sou exigente, quero carta apenas. Também para lhe escrever de vez em quando e mandar para você a minha amizade. Abraço da
Clarice."
Caraca! Já tem página fezocaonline e nem me contou!!! Que chique! Quando é que vai enfeitar mais o espaço aqui?
Beijocas e viva o vinho! (hehehehe... brincadeirinha)
Posted by: Moa at abril 30, 2006 10:56 PM